terça-feira, maio 28, 2024
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Como 5G coloca Brasil no centro de batalha entre gigantes

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A tecnologia 5G já é realidade em alguns países. No Brasil, o leilão que vai definir quem vai fazer parte desse mercado está marcado para 2021.

 

Segundo a OCDE, deve ser o maior leilão de 5G feito até então no mundo. Mas tem um detalhe. O 5G no Brasil virou arena da rivalidade entre
China e Estados Unidos, que travam uma espécie de Guerra Fria tecnológica em torno dele. A maior fornecedora de equipamentos de telecomunicações
do mundo, a chinesa Huawei, vem sendo acusada pelos EUA de servir como instrumento de espionagem
ao governo chinês.

 

Por isso os americanos tentam convencer o Brasil a excluir a empresa do certame. A China, por sua vez, diz que a investida
tem a única intenção de barrar seu crescimento tecnológico e que não há provas concretas de que a Huawei seja um canal de espionagem.

 

Sou Camilla Veras Mota, da BBC News Brasil,
e explico nesse artigo o que é o 5G e o que tem fundamento ou não dentro dessas polêmicas que circundam a implantação no Brasil.

 

Pra entender a geopolítica do 5G a gente precisa ter uma ideia bem clara do que essa tecnologia representa. A quinta geração de internet móvel não
é apenas uma nova frequência que vai ser aberta para permitir a transmissão de dados
digitais. Ele tem uma velocidade entre 10 e 20 vezes maior que o 4G: Isso mesmo, se você acha que o 4G do seu
celular é uma arraso, espera que a coisa pode ser muito mais rápida.

 

Mas, pra além do celular, se a gente pensar na estrutura das cidades, ele pode abrir caminho pra uma transformação radical. Uma velocidade maior de transmissão de dados
vai permitir, por exemplo, a implantação das chamadas redes elétricas inteligentes, ou smart grids, que abrem caminho pro funcionamento dos carros autônomos.

 

Ele acaba com aquele delay que tem entre o comando pro carro parar, quando ele identifica o obstáculo, e o momento em que o carro freia
de fato, sabe?  Vai permitir a realização de cirurgias de maneira remota, o controle de processos nas fábricas por meio de inteligência artificial,
o uso de drones pra fazer entregas. A geração, troca e processamento de dados
vai cada vez mais poder ser feita de forma autônoma, com pouca ou nenhuma interferência humana.

 

Essas novas redes precisam de uma grande infraestrutura física, de cabos de fibra óptica a data centers. E é aí que entra a celeuma em torno da Huawei. Os EUA não foram os únicos a expressar preocupação de que os equipamentos da empresa pudessem servir de canal para que a China tivesse acesso
a informações sensíveis. Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Itália, França são alguns dos países que, assim como os EUA, baniram o uso de equipamentos
da gigante de tecnologia em seus territórios, total ou parcialmente. A decisão mais recente é a do Reino Unido, anunciada em julho.

 

Neste mês de outubro, um comitê do Parlamento britânico publicou um relatório em que disse ter visto “evidências claras”
Entre a Huawei e o aparato do Partido Comunista Chinês. A empresa rebateu dizendo que o relatório
estava mais baseado em opiniões do que evidências.

 

Apesar de se tratar de uma empresa privada, a Huawei está sujeita à lei de segurança nacional chinesa aprovada em 2017, que permite
que o governo requisite dados de companhias privadas, caso a necessidade seja classificada
como importante para soberania do país. E é essa suscetibilidade à lei de segurança
nacional que preocupa muitos dos países que têm decidido agir contra a empresa.

 

Eu conversei com a Clarisse Brown, especialista em geotecnologia da consultoria Eurásia, e perguntei se essas acusações de espionagem
faziam sentido. Ela relembrou essas preocupações que vêm sendo compartilhadas entre diversos países, mas disse que, com base apenas em critérios
técnicos não é possível dizer com certeza se a Huawei é de fato um instrumento de espionagem
chinês.

 

Porém, ela ressalta um outro ponto bem importante. À medida que o mundo se torna mais dependente
da tecnologia e quantidades monumentais de informação circulam por esses novos caminhos,
aumenta a vulnerabilidade de empresas, setores, cidades ou mesmo países a eventuais ciberataques. Ou seja, independentemente de quem vai fornecer
a tecnologia ao Brasil, o país deveria estar atento à possibilidade de espionagem, de interceptação ou monitoramento desses dados por parte não apenas da China.

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Nesse sentido o Brasil tem um histórico recente com o próprio governo americano. Talvez vocês lembrem que, lá em 2015, o
site Wikileaks vazou documentos da Agência de Segurança Nacional dos EUA, a NSA, que
revelavam que a então presidente Dilma Rousseff, alguns de seus ministros e assessores haviam
sido grampeados. A especialista da Eurásia ressalta que tem como minimizar esses riscos.

 

O Reino Unido mantém um sistema de monitoramento ativo em busca de falhas de segurança há anos, assim como a Alemanha. Então é possível criar mecanismos de rastreamento,
mas é difícil dizer com segurança, segundo ela, que você consegue eliminar completamente o risco de espionagem. Outro porém: no caso do Brasil, ela avalia
que seria difícil ter sistemas de rastreamento semelhantes aos de países europeus, levando-se em consideração a necessidade de investimento e o momento atual da economia brasileira,
golpeada pela pandemia de covid-19. Mas voltando ao caso Huawei, pra gente encerrar: a empresa já opera no Brasil, há mais de 20 anos.

 

É uma das principais fornecedoras das antenas que abastecem as operadoras de telefonia. Assim, caso a empresa fosse excluída do leilão
e proibida de operar no país, ainda de acordo com a avaliação da Clarisse Brown, é possível que o processo de implantação da quinta geração de internet móvel levasse mais
tempo e que o serviço custasse mais caro, já que as empresas teriam que substituir
os equipamentos da Huawei que já existem. Mas tem o outro lado da moeda.

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Os EUA, na sua ofensiva contra a Huawei e a China, estão oferecendo financiamento aos países que decidirem substituir o que eles
chamam de “high risk suppliers”, ou fornecedores de alto risco, basicamente a Huawei e a ZTE, que também é chinesa. O Exim-Bank, banco americano de desenvolvimento,
tem cerca de US$ 60 bilhões disponíveis para ser usados com esse fim. Em outubro, o governo americano e o brasileiro
assinaram um memorando de entendimento que prevê investimentos de US$ 1 bilhão do banco
aqui no Brasil, recursos que seriam distribuídos em diversas áreas, inclusive no 5G.

 

Mas, se os americanos estão fazendo pressão, os chineses também estão. Recentemente, o embaixador chinês no Brasil,
Yang Wanming, deu declarações que foram interpretadas por alguns como ameaças veladas. Ele disse acreditar que o país tomaria uma
“decisão racional” sobre o 5G e afirmou que o leilão serviria para as empresas chinesas avaliarem a “maturidade” do país. O agronegócio brasileiro, que diretamente
não tem nada a ver com esse negócio de internet de quinta geração, teme que a China possa retaliar, caso a decisão lhe seja desfavorável, sobretaxando as importações brasileiras
ou usando algum outro mecanismo pra reduzir os embarques de produtos brasileiros pra lá.

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A China é nosso principal parceiro comercial e um ávido comprador de commodities, como soja e minério de ferro. A especialista da Eurásia lembra, por outro
lado, que a China sempre deu preferência a uma resposta mais moderada em conflitos recentes envolvendo o Brasil. Mas poderia haver uma reação da própria
Huawei, que prometeu investir US$ 800 milhões em uma fábrica aqui no país.

 

Caso a decisão não agrade, a empresa pode decidir construir essa fábrica em outro lugar, por exemplo. A Austrália já sentiu isso na pele. Desde que a companhia foi proibida de operar
lá, ela tem feito demissões e diminuído investimentos. O Brasil ainda deve levar algum tempo até
tomar uma decisão definitiva, e a gente segue acompanhando o assunto. Eu fico por aqui. Obrigada e até a próxima!

Gisleini Cipriani
Gisleini Cipriani
Publisher, Redatora, amante de filmes romanticos e histórias de amor. Gosto de tudo que envolve a arte e a moda, decoração e dicas de casa.

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